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Como tudo muda em 30 anos
Situação: O Pedro está a pensar ir até ao monte depois das aulas, assim que entra no colégio mostra uma navalha ao João, com a qual espera poder fazer uma fisga.
Ano 1978: O director da escola vê, pergunta-lhe onde se vendem, mostra-lhe a sua, que é mais antiga, mas que também é boa.
Ano 2008: A escola é encerrada, chamam a Polícia Judiciária e levam o Pedro para um reformatório. A SIC e a TVI apresentam os telejornais desde a porta da escola.
Situação: O Carlos e o Quim trocam uns socos no fim das aulas.
Ano 1978: Os companheiros animam a luta, o Carlos ganha. Dão as mãos e acabam por ir juntos jogar matrecos.
Ano 2008: A escola é encerrada. A SIC proclama o mês anti-violência escolar, o Jornal de Notícias faz uma capa inteira dedicada ao tema, e a TVI insiste em colocar a Moura-Guedes à porta da escola a apresentar o telejornal, mesmo debaixo de chuva.
Situação: O Jaime não pára quieto nas aulas, interrompe e incomoda os colegas.
Ano 1978: Mandam o Jaime ir falar com o Director, e este dá-lhe uma bronca de todo o tamanho. O Jaime volta à aula, senta-se em silêncio e não interrompe mais.
Ano 2008: Administram ao Jaime umas valentes doses de Ritalin. O Jaime parece um Zombie. A escola recebe um apoio financeiro por terem um aluno incapacitado.
Situação: O Luis parte o vidro dum carro do bairro dele. O pai caça um cinto e espeta-lhe umas chicotadas com este.
Ano 1978: O Luis tem mais cuidado da próxima vez. Cresce normalmente, vai à universidade e converte-se num homem de negócios bem sucedido.
Ano 2008: Prendem o pai do Luís por maus tratos a menores. Sem a figura paterna, o Luís junta-se a um gang de rua. Os psicólogos convencem a sua irmã que o pai abusava dela e metem-no na cadeia para sempre. A mãe do Luís começa a namorar com o psicólogo. O programa da Fátima Lopes mantém durante meses o caso em estudo, bem como o Você na TV do Manuel Luís Goucha.
Situação: O Zézinho cai enquanto praticava atletismo, arranha um joelho. A sua professora Maria encontra-o sentado na berma da pista a chorar. Maria abraça-o para o consolar.
Ano 1978: Passado pouco tempo, o Zézinho sente-se melhor e continua a correr.
Ano 2008: A Maria é acusada de perversão de menores e vai para o desemprego. Confronta-se com 3 anos de prisão. O Zézinho passa 5 anos de terapia em terapia. Os seus pais processam a escola por negligência e a Maria por trauma emocional, ganhando ambos os processos. Maria, no desemprego e cheia de dívidas suicida-se atirando-se de um prédio. Ao aterrar, cai em cima de um carro, mas antes ainda parte com o corpo uma varanda. O dono do carro e do apartamento processam os familiares da Maria por destruição de propriedade. Ganham. A SIC e a TVI produzem um filme baseado neste caso.
Situação: Um menino branco e um menino negro andam à batatada por um ter chamado ‘chocolate’ ao outro.
Ano 1978: Depois de uns socos esquivos, levantam-se e cada um para sua casa. Amanhã são colegas.
Ano 2008: A TVI envia os seus melhores correspondentes. A SIC prepara uma grande reportagem dessas com investigadores que passaram dias no colégio a averiguar factos. Emitem-se programas documentários sobre jovens problemáticos e ódio racial. A juventude Skinhead finge revolucionar-se a respeito disto. O governo oferece um apartamento à família do miúdo negro.
Situação: Tens que fazer uma viagem.
Ano 1978: Viajas num avião de TAP, dão-te de comer, convidam-te a beber seja o que for, tudo servido por hospedeiras de bordo espectaculares, num banco que cabem dois como tu.
Ano 2008: Entras no avião a apertar o cinto nas calças, que te obrigaram a tirar no controle. Enfiam-te num banco onde tens de respirar fundo para entrar e espetas o cotovelo na boca do passageiro ao lado e se tiveres sede o hospedeiro maricas apresenta-te um menu de bebidas com os preços inflacionados 150%, só porque sim. E não protestes muito pois quando aterrares enfiam-te o dedo mais gordo do mundo pelo cú acima para ver se trazes drogas.
Situação: Rui, 19 anos, uma fama de playboy ganha à base de andar a comer gajas muito mais velhas que ele, veste roupa de cabedal justinha e cheia de picos metálicos, conduz um Toyota Corolla Van todo lixado; Manda uma queca na Carina, miúda de 15 anos, hiperdesenvolvida, que se destaca já das outras gajas do bairro.
Ano 1978: O Rui é um FILHA DA **** DUM MESTRE !!
Ano 2008: Depois de um linchamento público a nível nacional, com especial destaque por parte de alguns tertulianos televisivos e ministros podres. José Sócrates consegue instaurar a pena de morte em Portugal. Rui tem o horror de ser o primeiro condenado à morte por esta lei nova com carácter retroactivo.
Situação: Fazias uma asneira na sala de aula:
Ano 1978: O professor espetava duas valentes lostras bem merecidas. Ao chegar a casa o teu pai dava-te mais duas porque ‘alguma deves ter feito’.
Ano 2008: Fazes uma asneira. O professor pede-te desculpa. O teu pai pede-te desculpa e compra-te uma Playstation 3.
Situação: Chega o dia de mudança de horário de Verão para Inverno.
Ano 1978: Não se passa nada.
Ano 2008: As pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão e caganeira.
Situação: O fim das férias.
Ano 1978: Depois de passar 15 dias com a família atrelada numa caravana puxada por um Fiat 600 pela costa de Portugal, terminam as férias. No dia seguinte vai-se trabalhar.
Ano 2008: Depois de voltar de Cancún de uma viagem com tudo pago, terminam as férias. As pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão, seborreia e caganeira.
Situação: Tens amigos
Ano 1978: Depois do trabalho, vão para umas jantaradas, vão beber uns copos, bejecas e tremoço no fim de uma tarde de verão, grandes bezanas e asneiradas de que se lembrarão para o resto da vida.
Ano 2008: Depois do trabalho, fecham-se em casa, pijama e chinelinhos, ‘falam’ no messenger, sabem da vida uns dos outros e de outros 2000 amigos que nunca viram pelos perfis de Hi5, enquanto dão uns toques no Pro Evolution Soccer ou vêm a última série do House ou do Lost.
11
2008
Os camionistas e o seu “carácter de excepção” perante a lei
Lendo as noticias de ontem e hoje vemos o resultado de uma paralisação dos transportes de mercadorias: um motorista morto (que caiu de um camião quando tentava forçar um colega a aderir ao protesto) em Alcanena, mais 3 atropelados (pelo mesmo motivo) em Vila Verde (Braga), vários camiões apedrejados e outros camionistas que viram a sua integridade fisica e os seus camiões em risco, pelas ameças dos colegas, caso não aderissem, para além de bombas de combustíveis “secas”, prateleiras de hipermercados vazias, navios e aviões quase sem combustível.
O que ninguém fala foi o que o senhor Pacheco Pereira escreve hoje no blog “Abrupto” e, embora não “morra de amores” pela opinião deste senhor, tenho de reconhecer que - em parte - ele tem razão. Escreveu ele:
Está toda a gente a fazer de conta, a começar pelo governo, que não existe hoje um grave problema de ordem pública em Portugal. Tudo na paralisação das empresas de camionagem é ilegal e ninguém quer saber. Impedir a circulação e bloquear estradas é ilegal, organizar piquetes que impedem com violência os camiões de passar é ilegal, e tudo isto é feito diante dos olhos dos agentes da GNR que passivamente assistem não se sabe bem para quê. Presumo que terão instruções para não prenderem ninguém, para não irem ver de onde vieram as pedradas, para garantir a passagem de quem quer passar e são bastantes os que o desejam fazer. Eu sei que no governo estão os que foram para a Ponte 25 de Abril incitar ao bloqueio e participar nele, mas deixar que o império da força se instale nas ruas e estradas paga-se muito caro. Os sinais que estão a ser dados são todos de fraqueza do estado e da lei.
Ora bem, são aqui focados dois dados importantes: primeiro, que os camionistas violam a Lei geral do país para levar adiante o seu protesto, e segundo, a referência aos incidentes da Ponte 25 de Abril de 1995 quando Cavaco Silva era Primeiro-Ministro.
É, de facto, ilegal a acção dos camionistas. Não a sua luta. Ninguém põe em causa o seu direito à greve, nem o direito à luta por melhores condições de trabalho. Mas há limites. Ninguém pode obrigar, pela força e pela coacção, contra vontade, a aderir a uma causa. Atentar contra a integridade física e contra a propriedade privada é crime em Portugal. E ser criminoso dá cadeia.
Mas depois á as consequências. Quem preferia ver a GNR a correr à bastonada os camionistas, como Dias Loureiro, Ministro da Administração Interna em 95, mandou fazer aos manifestantes da Ponte 25 de Abril, em vez de tentar, dentro do possível, controlar potenciais abusos como faz agora? Pelo que li, o senhor Pacheco Pereira preferia. Quem gostaria de ver a policia de intervenção a desfazer os piquetes de camionistas disparando contra eles balas de borracha, como o governo social democrata de Cavaco Silva (e de Pacheco Pereira) ordenou em 95?. O senhor Pacheco Pereira. Posições destas mostram que os sociais democratas não se arrependem e não aprenderam com os próprios erros.
Conter os abusos, controlar os camionistas, proteger quem nada tem a ver com o assunto e, mesmo entre motoristas e empresários dos transportes, zelar pela sua integridade fisica e pela sua propriedade, sim! Parar a violência e os abusos, sim! Mas conter violência e abusos com mais mais violência - inevitável nestas situações de alta tensão - por parte das autoridades, não!
08
2008
O Verão está a chegar!
A música é bastante conhecida e gosto dela. E gostei também desta montagem. Daí partilha-la com voces.