Entre nós, há quem milite contra os monopólios informáticos, cujo maior expoente é Bill Gates. Lentamente, em casa, na universidade ou no Estado, os amigos do software livre abrem brechas no império do gigante.Para onde quer que vá, João Miguel Neves, 29 anos, leva o portátil. «Até nos transportes públicos vou de computador ligado, a trabalhar», diz este viciado em programação. «E já fui com ele para o jardim quando estava a chover.» Esta asneira tem uma explicação simples: no minúsculo escritório onde trabalha, em Lisboa, não há janelas. Mesmo que existissem, João Miguel dificilmente repararia no estado do tempo. A sua atenção é refém, 14 horas por dia, do ecrã. A fazerem-lhe companhia, estão, em todo o mundo, milhares de programadores a renovar, alterar ou adaptar software de código aberto, constantemente ligados em web fóruns, chats, listas de discussão ou e-mail. São os adeptos do software livre (SL).
No início da década de 1980, um cientista americano do MIT (Massachusetts Institute of Technology), sentindo-se oprimido com as licenças impostas pelas marcas de software aos utilizadores, resolveu criar um novo conceito. Baseando-se nas práticas de disseminação do conhecimento científico, Richard Stallman defeniu como SL um programa de computador que permite ao utilizador não só a liberdade de o executar, mas igualmente de o compreender, copiar e dar a quem quiser, e ainda de o modificar. Stallman iniciou, assim, um movimento contra a criação de monopólios informáticos e pela liberdade de investigação computacional. Faltava-lhe, porém a base de construção de um sistema operativo (conjunto de programas executados por um computador) que concretizasse as suas ideias. A solução chegou da Finlândia, em 1991, num projecto que o seu autor, Linus Torvals, um estudante de Informática, baptizou de Linux. Este - ao contrário do Windows, por exemplo - possibilita ao utilizador ter livre acesso ao código fonte, ou seja, as entranhas do programa. Um grande atractivo para os informáticos, carolas ou, simplesmente, curiosos. Mas não só. Os seguidores desta corrente defendem que a programação em código aberto incentiva a inovação e aumenta a segurança dos sistemas operativos, por causa da quantidade de pessoas que têm acesso ao projecto e nele trabalham.
Engenheiro informático de formação, João Miguel aderiu à causa pelos princípios «revolucionários» de Stallman. E, actualmente, exerce a sua militância como presidente da ANSOL, associação que quer divulgar entre nós o SL. Para isso, os 50 sócios organizam, regularmente, Install parties (festas de instalação), nas quais se demonstram novos programas de código aberto e se ensina a instalar sistemas Linux.
A militância lá de casa
Participante activo nestas festas é David Aragão, 30 anos. Doutorado em Bioquímica, interessou-se por código aberto quando verificou que o sistema Windows não lhe permitia colocar em rede os oito computadores da família. Como já tinha contactado com Linux durante a licenciatura (na Universidade Nova de Lisboa), resolveu experimentar. Ficou fã. Se se depara com um caso difícil de resolver, recorre a um dos múltiplos web fóruns [fóruns de discussão, na Internet] em que está inscrito. «Na Net há sempre alguém disposto a partilhar os seus conhecimentos», diz, com entusiasmo. «Nunca tenho de esperar muito pela solução.»
Para David as vantagens não acabam aqui. Além de poder conhecer por dentro os programas que instala, a opção por código aberto permitiu-lhe recuperar computadores antigos que se tinham tornado obsoletos para as versões mais actualizadas de Windows. E, acrescenta: «Nunca mais tive vírus.»
Mas nem tudo é um mar de rosas. Se David quiser comprar um portátil com, por exemplo, placas gráficas «último grito da moda», poderá ter de esperar seis meses até que a comunidade modernize os programas SL e estes a reconheçam. O mesmo já não acontecerá um consumidor Windows, já que os fabricantes terão o cuidado de, antes de lançar o novo produto no mercado, verificar se este é compatível com a marca líder.
Percalço que não afectou a rendição caseira ao código aberto. Mesmo a sua mãe, Manuela Guerra, de 52 anos, não quer ouvir falar em Windows. «Estava sempre a ter problemas, mas desde que o David me instalou o Ubuntu [distribuição de código aberto grátis], acabaram-se as angústias.» A fácil adaptação à aplicação também constribuiu para o sucesso da mudança. «Ainda dei umas ‘cabeçadas’ porque há uns botões que não se encontram exactamente no mesmo sítio, mas estas versões estão muito simplificadas», explica a delegada comercial.
A impossibilidade de ler alguns formulários online é, para Ana Pereira, 25 anos, finalista de Quimica Aplicada, a única desvantagem de navegar na Web com Firefox, um dos maiores sucessos SL. No seu caso, foi o namorado, estudante de Informática e «activista convicto» do movimento, que lhe apresentou o pinguim - símbolo da Linux. Como Manuela, também ela se estava sempre a queixar dos problemas do Windows. «Comecei a ficar paranóica», confessa. «Gravava os documentos Word palavra a palavra, porque o programa estava sempre a crashar.» Hoje, Ana diz-se uma «envagelizadora» e, com o namorado, distribui CDs de instalação de Ubuntu pela universidade. No entanto, em casa, a doutrinação não atingiu ainda os resultados esperados: o irmão adolescente continua a preferir o Windows. «Por causa dos jogos», justifica.
A ovelha estratégica
Comportamento que Paulo Quaresma, 39 anos, compreende muito bem. Para o professor de Informática da Universidade de Évora, «o público em geral só começará a adoptar sistemas operativos livres quando estes lhes trouxerem alguma mais-valia.» Por isso, a equipa de investigadores informáticos daquela universidade desenvolveu um kit código aberto - o Alinex -, dedicado aos alunos do secundário, que inclui módulos pedagógicos - por exemplo, jogos de matemática, programas de desenho ou dicionários. A ideia é que, depois de terem contacto com o SL alentejano na disciplina de TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação), os «miúdos» percebam as vantagens deste sistema operativo e o utilizem no seu dia-a-dia. «Como é gratuito, poderão usá-lo em casa», diz o investigador. A história começou há 5 anos, quando o departamento de informática decidiu migrar os seus computadores para Linux. «Achámos que os nossos alunos deviam aprender em códigos abertos, para saberem como funcionam», conta Paulo. A partir daí, tomaram consciência das potencialidades do SL e, paralelamente ao ensino, começaram a investigar na área. O resultado é o Alinex, adaptação de um programa desenvolvido na Extremadura espanhola - onde o governo local decidiu adoptar SL em toda a Administração Pública. «Escolhemos a ovelha como símbolo, porque achámos que o pinguim não resistiria ao calor da região.» No futuro, querem construir kits que respondam às necessidades das pequenas e médias empresas: «Incluiremos software de gestão de stocks ou de facturação.» O objectivo de longo prazo é criar condições para o desenvolvimento regional - segundo Paulo Queresma, uma das funções da universidade -, fomentando o aparecimento de empresas locais de assessoria técnica de software livre. «Para nós, o Alinex não é uma questão de filosofia, é uma questão de estratégia», remata.
Estratágia é igualmente a palavra-chave que explica a opção - recente - do Governo português de migrar para software aberto alguns sectores da Administração Pública. Segundo Luís Vidigal, 57 anos, membro da direcção do Instituto de Informática do Ministário «a escolha não é contra Bill Gates, mas, antes, uma questão de independência do Estado face a monopólios.» Quem não poderia estar mais de acordo com a ideia é o ex-deputado do Bloco de Esquerda, João Teixeira Lopes, 37 anos, que, em 2003, viveu uma experiência atribulada na Assembleia da República (AR). Acérrimo defensor da adopção do SL na Administração Pública, o grupo parlamentar deste partido resolveu instalar no computador daquele sociólogo um sistema operativo Linux. «Queriamos ser nós a dar o exemplo», justifica Teixeira Lopes. Mas a iniciativa não correu bem. O servidor da AR, baseado em Windows, era imcompatível com código aberto e, por isso, algumas das funcionalidades davam erro. Mesmo contando com a boa vontade da equipa de informática da AR, acabaram por desistir.
‘Software’ livre como ganha-pão
Na última meia dúzia de anos, Portugal tem assistido ao aparecimento de alguns modelos de negócio assentes na comercialização de software aberto. E não será contraditório comercializar SL? «Não», esclarece o presidente da ANSOL. «As liberdades de Stallman não impedem a venda. Impedem é que o produtor detenha o monopólio de um dado programa porque, uma vez divulgado, poderá ser distribuído livremente.» Doutrina que Paulo Trezentos, 29 anos, co-fundador da Caixa Mágica, uma empresa de SL, conhece bem. Por isso, os €99 cobrados por pacote informático não são pelo software, mas pelos custos da assistência técnica ao consumidor. Afinal, nem toda a gente tem - como Ana Pereira e Manuela Guerra - um «bombeiro de serviço» 24 horas por dia, à mão de semear, para ajudar nas aflições informáticas.
Mas a Caixa Mágica não sobrevive apenas de «apagar fogos.» Vende cursos de formação e desenvolve tecnologia para servidores («um
computador que funciona como um posto dos CTT, recolhe e distribui informação»). E mantém parcerias com o ISCTE (Instituto Superior de Ciência do Trabalho e da Empresa). Instituição que desenvolveu um sistema operativo exclusivo para o Ministério da Justiça, o qual tem sido bem recebido. Contudo, Paulo Trezentos reconhece que pertence a uma comunidade ainda pouco expressiva. Hoje em dia, apenas o código aberto Apache (para servidores) conseguiu impor-se e derrotar o rival da Microsoft. Para Desktop (ambiente de trabalho) a procissão ainda vai no adro. «Assim que chegarmos aos 10% de utilizadores, teremos massa critica suficiente para sermos visíveis e dispararemos.»
Para salvar o mundo, dirão uns. Para multiplicar as oportunidades de negócio, dirão outros.
Por Alexandra Rosa (com João Luz), in Visão (Setembro 2006)